terça-feira, 24 de maio de 2016

Aventuras do Fanfiction no Universo Literário

     A professora de filosofia Mayara Lima de 28 anos é fã há mais ou menos um ano e meio. Gosta de assistir filmes e séries (sem preferência por gênero específico), ouvir música, sente um prazer peculiar ao assistir animes e ler mangás, uma de suas leituras favoritas. Ela conheceu a fanfiction através do seu perfil pessoal do Twitter no qual seus amigos sempre comentavam sobre esse tipo de história. No começo, não houve interesse. No entanto, o tempo passou e com ele veio acompanhado um despertar de um novo desejo. Num belo dia, já cansada da rotina do trabalho, entediada com as mesmas literaturas, decidiu procurar algo diferente, aquilo que despertasse uma sensação peculiar, mais forte dentro de si mesma, até que foi procurar as fanfics e ficou apaixonada pelo enredo. Hoje é totalmente viciada.

     “As fanfics que geralmente são baseadas em personagens fictícios ou pessoas reais, acabam por expressar nossos desejos, nossos votos, nossas emoções, algo que gostaríamos que fosse real e infelizmente não é. Um final alternativo ou uma ‘vida real’ alternativa. Assim como nos mangás, por exemplo”, comenta sobre as características dos fics.

      “Leio o que me chama atenção. Possuo um gosto particular pelo gênero fantasia e sobrenatural, porém leio de um tudo. Por isso, não tenho problemas em ler fanfic. Como as estórias são curtas, é mais fácil e rápido de ler”, enfatiza. 
  
     Com a estudante de licenciatura em matemática Adriane Gonçalves, de 21 anos, a história se distingue das outras. Ela nunca foi amante da leitura, no sentido literal do termo, no entanto a fanfic cativou seus sentidos de forma poderosa. Foi de tal maneira que hoje não consegue viver sem ele. “Fanfic entrou na minha vida meio que por acidente. Eu pesquisava outra coisa na internet e me deparei com o Nyah e comecei a procurar por aquelas que me interessavam e me apaixonei”, relembra sorridente a descoberta.

     De um modo inesperado o universo dos fics apareceu no seu caminho para não ir embora nunca mais. “Eu conheci o fanfic em 2011 e leio até hoje – já se foram 5 anos sendo fã. Eu amo a Carol Pass, Tamy Black e muitas outras – e claro, há aquelas que amei, O homem dos meus sonhos, A mulher da minha vida, A troca, são alguns deles”, comenta. 

                                            Surgimento do Fanfic

     Quem ama ler boas histórias e curte um enredo recheado de adrenalina, detalhes, drama, ação, suspense, conflitos internos e externos, sexo e uma dose de bom humor, com certeza vai gostar desse gênero. Estamos falando de fanfic. Também conhecido fanfiction ou simplesmente fic. É uma narrativa ficcional escrita e divulgada por fãs em sites, blogs e em outras plataformas virtuais. Podem ser baseados em filmes, séries, quadrinhos ou videogames. Elas são feitas com o objetivo de construírem um universo paralelo ao original, para ampliar o contato com os fãs e a interação entre eles. Nesse tipo de texto não existe nenhum interesse em violar os direitos autorais nem em obter lucros financeiros. É a expressão de um puro amor de fã reunido na criação de outras narrativas inspiradas nos enredos originais e seus personagens fascinantes.

      O fanfiction surgiu muito antes da web. Nos Estados Unidos, apareceram no final da década de 70, com a publicação de histórias em fanzines, um tributo a série Jornada nas estrelas. No Brasil, a escrita e veiculação desse gênero literário só se concretizou depois da adaptação do filme Harry Potter e a Pedra Filosofal.

       Atualmente na internet, há diversos sites e blogs específicos para armazenamento e divulgação dos fanfics. Com o desenvolvimento de ferramentas de publicação de textos mais práticas (como fóruns e blogs) foi criado uma grande área de fanfics interativos, um cruzamento deles com jogos de RPG. Os personagens destes são usualmente originais, seguindo uma história paralela à original, pegando emprestado algumas situações, seus personagens e acompanhando sua cronologia. Cada autor/ jogador controla um personagem e os rumos da narrativa são discutidos entre eles.

      Existem diversos blogs e sites brasileiros como Spirit e Nyah, além de estrangeiros como o Fanfiction.net, Asian FanFics, Animal Spirit e o Spirit FanFics que trabalham dessa forma, inclusive páginas no Facebook que se dedicam a postagem de fics. Muitos sites são separados por categorias: filmes, séries e livros – que são divididos em subcategorias. Há aqueles que contêm crossover (mistura entre histórias), outros leem só finalizadas.  Existem classificações indicativas para cada gênero de fanfic. Tem Roma, adulto, fantasia, drama, suspense. Neles, a pessoa não apenas lê as histórias, mas também tem a oportunidade de escrever. 
    
Retratos de uma escritora nada convencional

       Por outro lado, a estudante de jornalismo Izabelly Albuquerque, com 21 anos de idade, é um exemplo de uma verdadeira amante do fanfic. Ela não é apenas leitora, mas sim uma autêntica escritora. No melhor sentido da palavra. Calma, sempre está com fones de ouvido na maior altura e aproveita qualquer ocasião para escrever, independente do ambiente. O silêncio, a música e a madrugada é o trio ideal para a sua inspiração.

      Ela começou a ler fanfics por volta de 2010 num fórum do Orkut com personagens de um anime japonês (Naruto), mas o fato das autoras terem interrompido a escrito sem concluir, a deixou desinteressada em ler qualquer texto do gênero. Por volta de 2013, no seu último ano do ensino médio, ela se reaproximou das fanfics. Uma colega lhe mostrou o texto que escrevia sobre os mesmos personagens do anime. Izabelly já escrevia, mas não tinha nada publicado, somente alguns esboços manuscritos. A partir desse momento, ela começou a escrever mais seriamente. “O que mais me interessou foi a liberdade dentro do ‘limitado’. Quando você escreve fanfic você tem que entender que é livre para escrever o que quiser”, explica.

      A ideia de escrever surgiu em 2012. Eu acompanhava o anime e adorava alguns personagens específicos (Sasuke e Sakura), mas não gostava muito do rumo que eles estavam tendo. Na época, eu escrevi uma estória que vim a publicar no ano seguinte. Não tinha nada a ver com o enredo, só os personagens. O enredo era totalmente diferente”, relembra. “Mas se não fosse minha colega que me mostrou que escrevia, talvez eu nunca viesse a publicar nada”, conclui.

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